Falo de um tempo em que não havia tempo, nem relógio ou calendário. Havia apenas a morte, e o temor de que ela nos encontrasse desprevenidos em nossos ranchos. A morte era impiedosa com nossa gente, levava-nos um a um para matar sua insaciável fome.
A morte não respeitava nossos bailes, nossos churrascos ou nosso sono. Sempre presente, espreitando nossos passos, esperando algum velho ou guri, sair sozinho buscar água no poço, para o chimarrão, ou lenha para o churrasco. Levava os melhores cães, os melhores cavalos, os melhores daqueles homens campeiros.
Quando morreu o último velho, fomos todos tomados pelo ímpeto de não mais morrer naquele tempo sombrio, em que sonhar era proibido. Queríamos viver, comemorar e sonhar. O mais bravo dos nossos convocou a todos para rumarmos ao monumental, no episódio que ficou conhecido como o tempo de matar a morte. Reunimo-nos então no Olímpico Monumental, antes de raiar a aurora, de onde seguimos em silêncio e em segredo para as bandas do extinto Guaíba, procurando abrigo em meio aos Chacos. E foi ali que fundamos ‘O Recomeço’.
A morte nos procurou com afinco durante milênios nos quais podíamos ouvi-la gritar nossos nomes. Porém, sendo ela aguardada, quando chegou ao Recomeço, encontrou-nos armados até os dentes, prevenidos para a peleia que duraria 3 séculos e 3 décadas.
Ao raiar o sol por detrás do Olímpico Monumental, na manhã seguinte ao término da batalha, o chaco havia banhado-se em sangue, havia virado um pântano, onde homens morreram por matar a morte. Aquele sol seria para sempre o precursor da liberdade.
Desde então o céu tornou-se azul, num tom que chamamos até hoje de celeste, e não se viu mais a morte por aquelas bandas. Diz a lenda.
