Nota explicativa: Achei estas palavras escritas num diário bem velho que eu ganhei. Tentei lembrar o nome da Guria que deu o tal presente, mas só lembro que deu, o nome eu esqueci. Em fim, não sei nem ao certo se este texto realmente é meu, mas estava no diário. Bem, diário é uma coisa bem pessoal, então sei lá, Foda-se. Foi escrito com a Bic metal point, a que eu mais gosto de usar. Verdade seja dita; meu ou não, o texto estava ali e eu gostei…
O cheiro acre e enjoativo de urina seca e banheiros mal cuidados invadiu sua garganta fazendo-lhe respirar, instintivamente, de maneira mais profunda que seu peito dolorido de sol lhe permitia. Aquele banheiro não combinava com a classe aparente do lugar. Assim como ele não combinava. O álcool não deveria combinar com seus lábios e a música não combinava com seus ouvidos.
Mas mesmo assim bebia. Mesmo assim permanecia ali. Ele, que prometera jamais beber novamente. Ele, que sempre cumpria as suas promessas, menos as que fazia a si próprio. Ele, que nem mesmo tinha um motivo melancólico ou depressivo, mesmo festivo, para beber. Tudo ia tão bem quanto sempre esteve. Quanto nunca esteve. Era apenas o tédio. Bebia apenas por tédio.
Estava sozinho olhando o mar na noite. Ao seu redor grupos de casais e amigos. Pareciam nem se importar com ele. Imersos em seus mundinhos de conversas fúteis e alegrias artificiais. Qualquer baile ou clube genuinamente popular, no sentido mais proletário da palavra, tem uma alegriamais pura, mais genuína que todas as comemorações burguesas genuínas juntas. Alta e verdadeira ou pretensa burguesia. A medida que enriquecem os convivas, mais artificiais e falsas se tornam suas manifestações, suas alegrias. E aquele era o lugar de alegria mais burguesa daquele balneário, pequeno e desconhecido quando comparado aos seus badalados vizinhos. Por isso, certamente, aquele era o mias badalado ponto de encontro dos veranistas preguiçosos ou temerosos em enfrentar uma estrada vazia à noite.
-A arte verdadeira só surge do sofrimento. – disse para si mesmo erguendo o copo. Por quê dissera aquilo? Não sei, nem jamais saberei. Nunca foi um Artista, nem por arte jamais se interessou. Qualquer tipo de arte. Para ele um Van Gogh e um quadro pintado por uma dama da alta sociedade e só exposto por ela poder pagar o salão e por méritos sociais tinham o mesmo valor. Na música tinha o desprezo por qualquer coisa não eletrônica. Das outras artes, mal sabia o nome. E agora falava de criação artística, como fosse ele um Mozart ou sofresse a mesma dor criativa de um Allan Poe.
Mas ninguém o ouviu, nem ele quis que alguém ouvisse. Nem perceberam que falara algo, pois não o olharam com aquele jeito ridicularizador e inquisidor para a sua espontaneidade solitária. E ele bebeu, bebeu em seu tédio. Comemorando-o e amaldiçoando-o. Depois levantou-se e, cambaleando, retomou a caminhada que o levaria de volta para casa.
Caiu num rio, quase um esgoto, que cortava seu caminho disfarçado em uma ponte e morreu afogado, desovando na praia, para delírio dos banhistas madrugadores.





