Templo inpuro

Entradas do Setembro 2008

Copo Vazio

Setembro 30, 2008 · 7 Comentários

Nota explicativa: Achei estas palavras escritas num diário bem velho que eu ganhei. Tentei lembrar o nome da Guria que deu o tal presente, mas só lembro que deu, o nome eu esqueci. Em fim, não sei nem ao certo se este texto realmente é meu, mas estava no diário. Bem, diário é uma coisa bem pessoal, então sei lá, Foda-se. Foi escrito com a Bic metal point, a que eu mais gosto de usar. Verdade seja dita; meu ou não, o texto estava ali e eu gostei…

O cheiro acre e enjoativo de urina seca e banheiros mal cuidados invadiu sua garganta fazendo-lhe respirar, instintivamente, de maneira mais profunda que seu peito dolorido de sol lhe permitia. Aquele banheiro não combinava com a classe aparente do lugar. Assim como ele não combinava. O álcool não deveria combinar com seus lábios e a música não combinava com seus ouvidos.

Mas mesmo assim bebia. Mesmo assim permanecia ali. Ele, que prometera jamais beber novamente. Ele, que sempre cumpria as suas promessas, menos as que fazia a si próprio. Ele, que nem mesmo tinha um motivo melancólico ou depressivo, mesmo festivo, para beber. Tudo ia tão bem quanto sempre esteve. Quanto nunca esteve. Era apenas o tédio. Bebia apenas por tédio.

Estava sozinho olhando o mar na noite. Ao seu redor grupos de casais e amigos. Pareciam nem se importar com ele. Imersos em seus mundinhos de conversas fúteis e alegrias artificiais. Qualquer baile ou clube genuinamente popular, no sentido mais proletário da palavra, tem uma alegriamais pura, mais genuína que todas as comemorações burguesas genuínas juntas. Alta e verdadeira ou pretensa burguesia. A medida que enriquecem os convivas, mais artificiais e falsas se tornam suas manifestações, suas alegrias. E aquele era o lugar de alegria mais burguesa daquele balneário, pequeno e desconhecido quando comparado aos seus badalados vizinhos. Por isso, certamente, aquele era o mias badalado ponto de encontro dos veranistas preguiçosos ou temerosos em enfrentar uma estrada vazia à noite.

-A arte verdadeira só surge do sofrimento. – disse para si mesmo erguendo o copo. Por quê dissera aquilo? Não sei, nem jamais saberei. Nunca foi um Artista, nem por arte jamais se interessou. Qualquer tipo de arte. Para ele um Van Gogh e um quadro pintado por uma dama da alta sociedade e só exposto por ela poder pagar o salão e por méritos sociais tinham o mesmo valor. Na música tinha o desprezo por qualquer coisa não eletrônica. Das outras artes, mal sabia o nome. E agora falava de criação artística, como fosse ele um Mozart ou sofresse a mesma dor criativa de um Allan Poe.

Mas ninguém o ouviu, nem ele quis que alguém ouvisse. Nem perceberam que falara algo, pois não o olharam com aquele jeito ridicularizador e inquisidor para a sua espontaneidade solitária. E ele bebeu, bebeu em seu tédio. Comemorando-o e amaldiçoando-o. Depois levantou-se e, cambaleando, retomou a caminhada que o levaria de volta para casa.

Caiu num rio, quase um esgoto, que cortava seu caminho disfarçado em uma ponte e morreu afogado, desovando na praia, para delírio dos banhistas madrugadores.

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O INDOMÁVEL

Setembro 29, 2008 · Deixe um comentário

 

Na 7060 Hollywood Boulevard, existe uma estrela, que segundo os responsáveis, não é tão fotografada como as outras.  Isso porque o nome que consta ali é de um cara que vem de um tempo em que estrela de cinema não era apenas um sinônimo para corpo sarado. No tempo dele, o astro antes de tudo, tinha que brilhar para fazer jus ao titulo. Paul Newman brilhava. Sobrava talento.

Lembro de ter visto a caixa contendo o indomável em uma banca de revistas. Gostei da expressão do Donald Sullivan, o Sully. Foi por isso que levei o filme. Não me arrependi. O roteiro simples ganha muito com a encenação do protagonista. Gostei tanto do personagem que volta e meia aparece um Sullivan nas minhas histórias. Sully é um desses caras que ninguém nunca ouviu falar e que se desaparecer ninguém vai sentir falta. O cara é um sujeito bem amargo e solitário. Sully vive com uma professora que lecionou a ele no passado e que ainda acredita no ex-aluno. Só ela acredita nele, ele mesmo não se leva tão a sério. Foi com esse roteiro simples que conheci o Paul Newman. Depois descobri que a identificação dele (e minha) com  o personagem não era por acaso. O ator não pegava papéis grandiosos, preferia papéis nos quais se divertisse. Representou apenas a escória, os fracassados, desajustados e anônimos. Um perfeito anti-herói.

O Paul perdeu a briga para um câncer de pulmão dia desses. Foi a ultima peça que encenou. E como os personagens que ele encenou e deu vida nas telas de cinema, partiu sem muito estardalhaço. Quase ninguém reparou. Era o jeito dele, era assim que ele gostava das coisas, discretas, como aquela estrela na 7060 Hollywood Boulevard.

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SOBRE O SILÊNCIO DAQUELES CARAS

Setembro 19, 2008 · 1 Comentário

 

de León-cabeça sangrando

James Dean oferecia seu corpo para que os freqüentadores de um bar em Hollywood apagassem seus cigarros. O cara gostava de carros, cerveja e maconha. Afirmam por ai que sua prioridade na escola era perder a virgindade. James Dean não tinha muitos amigos. Inegavelmente era um gênio das artes cênicas.

Andy Warhol é autor da frase “todos terão seus 15 minutos de fama”. Revelou o Velvet Anderground. é o pai da pop art .Segundo Robert Hugues, Warhol era um sujeito chato e sem nada a dizer, morreu após uma operação da vísicula biliar.

Mário Quintana foi um dos maiores poetas Brasileiros, natural de Alegrete (RS). Autor de uma obra rica em sutilezas e ingenua ironia. Morreu em um quarto de hotel em Porto Alegre. O hotel foi pago com o dinheiro dos amigos.

Hugo de León, é um uruguaio nascido em Rivera, jogava uma tremanda bola, na defesa e no ataque. Foi capitão do Grêmio durante uma temporada histórica, em que o clube gaucho foi campeão da libertadores e do mundial interclubes. Hoje é representante comercial e eventualmente vai a Porto Alegre torcer pelo Grêmio. O cara ainda tá na ativa, mas é de uma outra geração, de outros tempos.

Eventualemte, me flagro pensando nestes caras, em suas vidas, suas contribuições e em suas silenciosas despedidas.

O que passava na cabeça de James Dean, enquanto dirigia seu carro em alta velocidade, no momento anterior ao acidente que tirou sua vida?

Warhol chegou a pensar que sua obra estava finalmente completa quando encarou inexoravelmente sua efemeridade?

Quintana, teria acendido um cigarro e suspirado um poema?

Hugo de León ganha os royalties, daqueles que estampam seu rosto em camisetas e bandeiras? Ele pensa nisso?

Esses caras não falavam de si mesmos por ai, sabe. Eles não tinham essa pretenção. Tudo o que se sabe sobre eles consta em biografias lançadas póstumamente( exceto no caso de Hugo de León). O que importava para eles era suas obras, seus respectivos oficios, manja?! Como se eles sentissem que suas vidas fosse só um instrumento para que o sopro de vida se fizesse sentir através de suas obras. Não através de suas pequenas mesquinharias.

Um sujeiro como o James Dean, que era completamente solitário, que não sentia-se a vontade na companhia de garotas deve ter se sentido muito só a vida toda. Porra, o maior tesão do cara era ficar lá na biblioteca daquele reverendo, deitado no chão. Ele não passava a tarde discutindo o plano economico ou os caminhos da politica externa norte-americana. Ele só ficava lá deitado no chão da biblioteca.

Não consta que ele tenha ido á imprenssa e dito “garotas, me sinto muito só”. Ele continuou sua vida, mesmo com a fama ele continuou lá, falando pouco e passando a maior parte do tempo deitado na biblioteca do reverendo. Pra ele isso era importante, e portanto, sagrado.( sem sacanagem, porra!)

O Quintana nunca deu uma entrevista dizendo algo do tipo  “ah pessoal, eu queria dizer a vcs que eu ando meio sem grana sabe!?  Se alguém puder passar aqui e me deixar uma quantia, poxa, eu dedico meu próximo livro e tal”. Que nada, e também nunca saiu por ai dizendo que a ABL não o reconhecia.

Em tempos de monocultura como os atuais, eu vejo isso como algo tão distante do atual universo artistico. Eu não sei se esses caras não tinham o que dizer, mas acho uma coisa nobre eles não terem dito nada, preservando assim sua intimidade. O valor que lhes é atribuido, é exclusivamente por suas contribuições. Eu não tenho uma palavra pra definir isso. Mas, no caso dos citados, é o que mais admiro, mais até do que suas obras.

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OS GENIOS NÃO SE DEPEDEM

Setembro 17, 2008 · Deixe um comentário

NÓS É QUE NOS DESPEDIMOS DELES!!!

MORREU NO ULTIMO DIA 15 RICHARD WRIGHT, TECLADISTA FUNDADOR DO PINK FLOYD.
E EU DIZIA SEMANA PASSADA PRUM PARCEIRO O SEGUINTE SOBRE WRIGHT, “TENHO ORGULHO DA CORAGEM DAQUELES SOLOS”. MORRE O HOMEM, FICA O MITO!

 

GOODBYE CRUEL WORLD

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SIRVAM NOSSAS FAÇANHAS DE MODELO A TODA TERRA!

Setembro 16, 2008 · Deixe um comentário

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BOLINHOS DE VENTO

Setembro 16, 2008 · 2 Comentários

BOLINHOS DE VENTO

pegue um lápis e marque um ponto

no centro de uma folha

a solidão é tudo o que está em volta

(Alice Sant´anna)

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Jazz coffee e o inverno em Montreal

Setembro 15, 2008 · Deixe um comentário

Em Montreal faz frio todos os dias do ano

Eu freqüentava um jazz coffee na periferia

Porque gostava do silêncio e do isolamento

Que o frio nos impunha.

Em Montreal não é exagero dizer que

todos os dias são noites, e chega a ser redundante

dizer “inverno rigoroso”.

Eu era muito feliz em Montreal,

Com aquele scoth e aquela loira ingênua

E curiosamente sorridente.

Não há pretensões no inverno, não em Montreal.

O cachorro, a casa com cercas brancas, o jardim

Cuidadosamente planejado…

Essas besteiras não significam absolutamente nada

No inverno em Montreal.

Não se quer companhia ou alento.

Talvez por isso, eu não tenha ligado um mês depois

Quando me dei conta de que a loira sorridente não aparecia

Mais. Eu só me dei conta disso um mês depois.

Eu era um sujeito feliz no inverno em Montreal,

Como fui feliz aos arredores do monumental.

No inverno em Montreal, as pessoas não pensam

Em coisas tristes.

As pessoas são bem esquisitas em Montreal,

Ou talvez, apenas diferentes.

Mas no inverno, em Montreal, a gente nem repara

Nessas coisas.

Muitas coisas perdem em sua relevância quando

Se está ocupado em descongelar os dedos. Ou o nariz.

Talvez por isso, a gente tava sempre feliz,

No inverno em montreal.

 

 

convem ler ao som de blue moon de Billie Holiday

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AO MESTRE COM CARINHO

Setembro 14, 2008 · Deixe um comentário

ESTA FOI A ÚLTIMA CRÔNICA DE FAUSTO WOLFF PUBLICADA.

COM ELA, ENCERRO AS HOMENAGENS AO HOMEM E AO MITO.

À sombra do medo em flor

Dêem a chefia da portaria ao mais dócil empregado e logo ele se tornará um tirano

Já escrevi em algum lugar que, enquanto não nos revoltarmos contra o conceito de democracia que considera sagrado o direito de uma minoria escravizar o resto, jamais chegaremos à condição de seres humanos. Seremos sempre caricaturas, títeres perdidos na ventania, sempre com cara de ?desculpe, não era bem isso que eu queria dizer?.

Enquanto não se der a revolução da humanidade contra a tirania, enquanto deixarmos que nos humilhem para que possamos continuar vivendo, teremos de suportar algumas imperfeições, certos espinhos colocados em nossos sapatos ainda na infância que não podemos ou não queremos tirar.

Uma dessas imperfeições é a constatação de que, à medida que envelhecemos, vamos nos tornando mais medrosos. Quando deveria acontecer o contrário: à medida que envelhece, o homem deveria tornar-se mais corajoso, porque mais sábio, mais justo, mais conhecedor dos seus deveres e direitos.

Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, todos os dentes e era um sujeito bonito, era também dado a papagaiadas. Certa vez, ainda noivo (havia noivados e até virgens naquela época), estava no falecido Bar Castelinho, tomando um chope com minha futura mulher, quando um dos donos de uma revista para a qual eu escrevia sentou-se à nossa mesa e se comportou de forma grosseira.

Gentilmente, mandei que se retirasse, pois já tinha de aturá-lo o dia inteiro e não pretendia fazer isso quando estava namorando. Fui despedido no dia seguinte. Na hora, a sensação foi boa, mas eu era muito jovem para perceber que os rateios estavam contra mim.

Outra imperfeição: ser burro, viver e conhecer o mínimo do seu potencial energético interior e, além disso, ter de suportar a consciência da sua mortalidade. Algumas pessoas percebem isso, mas, como são ignorantes, aceitam o princípio nada otimista de que a vida é um absurdo porque acaba na morte e, como dizia Camus, o homem vive e não é feliz. Essa constatação é tão angustiante que, sem uma garrafa ao alcance da mão, é difícil resistir à tentação de não dar um tiro na têmpora.

Hoje em dia, em pleno século 21, a grande maioria de escravos aceita essa condição fingindo não saber dela, fingindo que a vida é assim mesmo. Uns entram com o pé e os outros com o popô, uns com o pescoço e os outros com a foice. Excetuando os psicopatas que, aparentemente, já nascem tortos, alguns poucos escravos se rebelam e saem fazendo bobagens: roubando, assaltando, matando, estuprando.

Quando isso acontece, todos ficam com cara de tacho, fingindo que não têm nada a ver com o peixe. Em seguida, os políticos pedem ?responsabilidade criminal aos 16 anos?. Logo, pedirão responsabilidade aos 15, 14 e cosi via. Cosi via significa que aumentará o número de crianças assassinadas ao nascer; aceitação literal da loucura religiosa de que o homem já nasce pecador. Claro que essa lei só valerá para crianças pobres.

Sou contra a pena de morte, mas, como a tragédia, mesmo quando coletiva, é sempre individual, o que eu faria se matassem alguém indispensável à minha vida? E se alguém tirasse a vida de uma pessoa e, ao fazer isso, me deixasse aleijado interiormente pelos anos que me restam?

Como não acredito na Justiça e também não acredito que podemos julgar oficialmente os efeitos sem punir as causas, eu simplesmente mataria o assassino. E o faria pessoalmente, com as minhas mãos.

Em seguida, cidadão exemplar que sou, me entregaria ao juiz. Não teria resolvido nada, mas como sou humano em estágio ainda bárbaro, pelo menos isso atenuaria um pouco a minha dor.

Como vejo a coisa hoje? Dêem a chefia da portaria de um edifício ao mais dócil dos empregados e logo ele se tornará um tirano para agradar ao poder imediatamente acima dele.

O poder ama a si mesmo e aos poderosos. É tão implacável na sua injustiça que consegue convencer mais de 100 milhões de brasileiros adultos de que devem escolher entre o algoz da esquerda e o da direita. E nada acontece.

Lembranças

Se alguém perguntar por mim,

diga que volto já.

Se não voltar, vá ao jardim.

Serei terra, cajá, jasmim.

Fausto Wolff

(Cem Poemas de Amor e Uma Canção Despreocupada)

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AO MESTRE COM CARINHO-IV

Setembro 11, 2008 · Deixe um comentário

 

QUESTÃO DE ORDEM 

 

A garotada fazia muita quizumba no salão.

O gaiteiro parou de cantar a rancheira

E deu um tiro no pé de um Lourinho que

Berrava “o romance morreu”.

Quando todos ficaram em silêncio

O carteiro tirou um ás de espada da guaiaca

E disse:

“Comportemo-nos, irmãos.

Caso contrário, descobrirão

Que não somos comportados

Nem irmãos”.

 

MISSÕES

Quando o gaiteiro velho

Fez 203 anos

Achou que estava na hora

De pendurar as esporas.

Foi pra um quarto de fundo

De uma casa abandonada

De um primo morto,

Lá pros lados de Santa Cruz.

Sabia que seu sangue

Vinha da serra do mar

E que seus pés enormes

Trouxera da terra do fogo;

Que seu coração

era tão bonito

que não se admitia

de lugar algum.

O gaiteiro velho

tocou  para as vítimas

dos ratos cruéis;

tocou para filhos de judeus,

ciganos e comunistas,

aos quais dava uma rapadura,

um sorriso e um aperto

de mão forte.

Esse gaiteiro velho

Tocou em Nagazaki,

Na África do sul, em Auschwitz e Hiroshima.

Peleou com a morte em

Ruanda por teimar

Em desobedecê-la.

Levantou muros

contra os vírus

que, sendo homens,

os homens matavam.

Esse gaiteiro velho

Teve amantes em Oliú

E muitas filhas

Na Boate Maipu.

Dividiu iglus e tendas,

Mentiras, pérolas, rendas,

E então lhe bateu

Saudade de algum lugar.

Voltou pro quarto do primo,

Botou na frente da mesa de arrimo

A mais bela fileira de cocaína.

Mandou um guri

Chamar Janaína e Conceição,

Mais todas as putas da região,

Para vê-lo fazer

Estrepolias com o coração.

Cumpridas todas as missões,

Ao Rio Grande do Sul,

A Santo Ângelo, a Buriti,

Às missões, ele voltava.

Olhos nos olhos de um piá

E as mãos entre as coxas

Das chinas de Posadele.

A lua ameaçava, mas dava

Pra ver o sol.

O lugar era aqui.

E o piá era ele.

 

Do livro Gaiteiro Velho, Bertrand Brasil (2003)

 

Do diário de Fausto Wolff: “Experimente explicar a uma barata a beleza de uma borboleta”.

Fausto Wolff, A milésima segunda noite, p. 648 (Bertrand Brasil)

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AO MESTRE COM CARINHO-III

Setembro 10, 2008 · Deixe um comentário

De repente tu ainda esteja se perguntando, porra, quem é mesmo o tal Fausto Wolff? por que é que alguém passa uma semana homenageando o cara?

se tu ainda não sacou chapinha, então dá uma lida neste texto ai de baixo.

obra prima!

dalhe Fausto!

PAPO DE VELHO, LADRÃO E INTERMEDIÁRIO

Fausto Wolff

O sujeito já passava da meia-idade. Era um velho boa-pinta que descobrira isso há pouco tempo e tentava agir de conseqüência, mas algumas coisas traíam o tempo que carregava nas costas. Não que isso tivesse importância para ele nem que pudesse surpreendê-lo em atitude geriátrica. Esquecer de puxar o zíper das calças, por exemplo. Julgar que o último pingo havia desaparecido na privada, mas não… esperara pacientemente pra decolar nas calças e ainda convidara alguns primos e amigos.

De qualquer modo, não era um cara ranzinza. Quando queria uma informação, aproximava-se da pessoa e perguntava em voz clara, pois era meio surdo, e a pessoa: “Não precisa berrar que eu não sou surdo”. Assim ia levando sua vidinha, sempre de short e camisa sem gola, pois trabalhava em casa e, pensava ele, sempre podia pedir a grana que lhe deviam pelos dez anos que passara no exterior, voltando com quase 40 para trabalhar na grande imprensa à época, O Pasquim.

Sua mulher lhe dissera que precisava fazer alguma coisa e ele respondia que faria esta coisa quando ficasse velho, embora soubesse que já estava velho. Era jornalista e escrevia uma crônica diária para seu jornal. Usava o computador como se ela fosse a Olivetti que o acompanhou por quase 50 anos. Não ousava mexer em qualquer tecla com a qual não tivesse muita intimidade, com medo de que o mundo explodisse ou o computador derretesse na sua cara.

Uma vez por semana seu neto de oito anos passava por lá e dava uma geral no dinossauro, como o chamava. Com exceção dos políticos, dos banqueiros, dos latifundiários, dos publicitários das novelas de TV, dos pastores eletrônicos, gostava de quase tudo, menos dos robôs que falam ao telefone.

Outro dia, esquecera-se do tempo conversando com o AP dos Santos e agora temia que não conseguiria mais falar com a bela coroa, secretária do banco.

- Quem fala? – perguntou.

Uma voz de homem respondeu:

- É o ladrão.

- Desculpe, mas eu não queria falar com o dono do banco.

- Dona Wilza, a gerenta, está aí?

- Deve estar com os outros reféns.

- Entendo – disse o velho. Ganham o mínimo para fazer o máximo. (Pausa) Será que não poderia dar uma palavrinha com um deles?

- Não vai dar. Estão todos amordaçados.

- Entendi. Gestão moderna. Fizeram alguma crítica e calaram a boca deles. Não tem nenhum chefe por aí?

- Claro que não! Quanta ignorância. O chefe está na sua cela, no presídio, que é o melhor lugar para se chefiar um assalto.

- O negócio é o seguinte, eu tenho uma conta aí…

- Não tem mais. Sinto muito, mas estamos levando tudo. O saldo da tua conta agora é zero.

- Não tinha muito mais do que isso. A informação que quero é sobre juros.

- Companheiro, eu sou um ladrão pé-de-chinelo. Meu negócio é pequeno, assalto a banco, vez ou outra um seqüestro. Para saber de juro é melhor tu ligar pra Brasília.

- Sei, sei. O senhor tá na informalidade, né? Também, com o preço que estão cobrando por um voto hoje em dia… Mas, será que não podia fazer um favor pra mim? É que eu atrasei o pagamento do cartão e queria saber quanto vou pagar de taxa. Meu nome é Fausto Wolff… é…. com dois efes.

- Tu tá pensando que eu tô brincando? Isso é um assalto!

- Longe de mim. Que é um assalto, eu sei perfeitamente. Mas queria saber o número preciso. Seis por cento, sete por cento?

- Eu acho que tu não tá entendendo, ô mané. Sou assaltante. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca?

- Ah, já estava esperando. Vai querer vender um seguro de vida ou um título de capitalização, né?

- Não… Eu… Peraí, bacana, que hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho. (Um minuto depois) Alô? O sujeito aqui tá dizendo que é oito por cento ao mês.

- Puxa, que incrível!

- Tu achava que era menos?

- Não, achava que era isso mesmo. Tô impressionado é que, pela primeira vez na vida, consegui obter uma informação de uma empresa prestadora de serviço, pelo telefone, em menos de meia hora e sem ouvir Pour Elise.

- Quer saber? Fui com a tua cara. Dei umas bordoadas no gerente e ele falou que vai te dar um desconto. Só vai te cobrar quatro por cento, tá ligado?

- Não acredito! E eu não vou ter que comprar nenhum produto do banco?

- Não vai ter de comprar picles. Tá acertado.

- Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa…

- Ih, sujou! (tiros, gritos) A polícia!

- Polícia? Que polícia? Alô? Alô? (sinal de ocupado).

- Alô?… Droga! Maldito Estado. Sempre se intrometendo nas relações entre homens de bem!

 

ESTE ARTIGO FOI PUBLICADO NO JORNAL DO BRASIL (30/09/2007)

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