Templo inpuro

AO MESTRE COM CARINHO-IV

Setembro 11, 2008 · Deixe um comentário

 

QUESTÃO DE ORDEM 

 

A garotada fazia muita quizumba no salão.

O gaiteiro parou de cantar a rancheira

E deu um tiro no pé de um Lourinho que

Berrava “o romance morreu”.

Quando todos ficaram em silêncio

O carteiro tirou um ás de espada da guaiaca

E disse:

“Comportemo-nos, irmãos.

Caso contrário, descobrirão

Que não somos comportados

Nem irmãos”.

 

MISSÕES

Quando o gaiteiro velho

Fez 203 anos

Achou que estava na hora

De pendurar as esporas.

Foi pra um quarto de fundo

De uma casa abandonada

De um primo morto,

Lá pros lados de Santa Cruz.

Sabia que seu sangue

Vinha da serra do mar

E que seus pés enormes

Trouxera da terra do fogo;

Que seu coração

era tão bonito

que não se admitia

de lugar algum.

O gaiteiro velho

tocou  para as vítimas

dos ratos cruéis;

tocou para filhos de judeus,

ciganos e comunistas,

aos quais dava uma rapadura,

um sorriso e um aperto

de mão forte.

Esse gaiteiro velho

Tocou em Nagazaki,

Na África do sul, em Auschwitz e Hiroshima.

Peleou com a morte em

Ruanda por teimar

Em desobedecê-la.

Levantou muros

contra os vírus

que, sendo homens,

os homens matavam.

Esse gaiteiro velho

Teve amantes em Oliú

E muitas filhas

Na Boate Maipu.

Dividiu iglus e tendas,

Mentiras, pérolas, rendas,

E então lhe bateu

Saudade de algum lugar.

Voltou pro quarto do primo,

Botou na frente da mesa de arrimo

A mais bela fileira de cocaína.

Mandou um guri

Chamar Janaína e Conceição,

Mais todas as putas da região,

Para vê-lo fazer

Estrepolias com o coração.

Cumpridas todas as missões,

Ao Rio Grande do Sul,

A Santo Ângelo, a Buriti,

Às missões, ele voltava.

Olhos nos olhos de um piá

E as mãos entre as coxas

Das chinas de Posadele.

A lua ameaçava, mas dava

Pra ver o sol.

O lugar era aqui.

E o piá era ele.

 

Do livro Gaiteiro Velho, Bertrand Brasil (2003)

 

Do diário de Fausto Wolff: “Experimente explicar a uma barata a beleza de uma borboleta”.

Fausto Wolff, A milésima segunda noite, p. 648 (Bertrand Brasil)

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