QUESTÃO DE ORDEM
A garotada fazia muita quizumba no salão.
O gaiteiro parou de cantar a rancheira
E deu um tiro no pé de um Lourinho que
Berrava “o romance morreu”.
Quando todos ficaram em silêncio
O carteiro tirou um ás de espada da guaiaca
E disse:
“Comportemo-nos, irmãos.
Caso contrário, descobrirão
Que não somos comportados
Nem irmãos”.
MISSÕES
Quando o gaiteiro velho
Fez 203 anos
Achou que estava na hora
De pendurar as esporas.
Foi pra um quarto de fundo
De uma casa abandonada
De um primo morto,
Lá pros lados de Santa Cruz.
Sabia que seu sangue
Vinha da serra do mar
E que seus pés enormes
Trouxera da terra do fogo;
Que seu coração
era tão bonito
que não se admitia
de lugar algum.
O gaiteiro velho
tocou para as vítimas
dos ratos cruéis;
tocou para filhos de judeus,
ciganos e comunistas,
aos quais dava uma rapadura,
um sorriso e um aperto
de mão forte.
Esse gaiteiro velho
Tocou em Nagazaki,
Na África do sul, em Auschwitz e Hiroshima.
Peleou com a morte em
Ruanda por teimar
Em desobedecê-la.
Levantou muros
contra os vírus
que, sendo homens,
os homens matavam.
Esse gaiteiro velho
Teve amantes em Oliú
E muitas filhas
Na Boate Maipu.
Dividiu iglus e tendas,
Mentiras, pérolas, rendas,
E então lhe bateu
Saudade de algum lugar.
Voltou pro quarto do primo,
Botou na frente da mesa de arrimo
A mais bela fileira de cocaína.
Mandou um guri
Chamar Janaína e Conceição,
Mais todas as putas da região,
Para vê-lo fazer
Estrepolias com o coração.
Cumpridas todas as missões,
Ao Rio Grande do Sul,
A Santo Ângelo, a Buriti,
Às missões, ele voltava.
Olhos nos olhos de um piá
E as mãos entre as coxas
Das chinas de Posadele.
A lua ameaçava, mas dava
Pra ver o sol.
O lugar era aqui.
E o piá era ele.
Do livro Gaiteiro Velho, Bertrand Brasil (2003)
Do diário de Fausto Wolff: “Experimente explicar a uma barata a beleza de uma borboleta”.
Fausto Wolff, A milésima segunda noite, p. 648 (Bertrand Brasil)
