Templo inpuro

Entradas do Janeiro 2009

picles com ovos

Janeiro 31, 2009 · 5 Comentários

reencontrei alguns amigos noite passada. eles estavam diferentes. tava lá o Gurp, o CDX, o Art…pois é, os caras têm apelidos estranhos, e aparentemente vivem suas vidas com dignidade. depois de todo o tempo que o mundo nos impôs, que se configurou em distancia e qualquer outra coisa, a gente se tromba e bebe algumas latas, relembra as bravatas e constata que não foi nem é feliz.

ninguém perdeu o pai por causa de um AVC fulminante, ninguém fez uma longa e inesquecivel viagem, nenhum daqueles caras desbravou novos mundos, fez sucesso ou se paixonou de verdade. praticamente nada aconteceu em 2 ou 3 anos. ninguém parecia preocupado em ter algo incrivel pra dizer aos outros. mas eu percebi em certa altura, que havia no ar um constrangimento, como se todos eles esperassem mais uns dos outros. ninguém ali estava realmente feliz.

a vida vai seguindo e a gente vai sendo levado por ela. nada mais pra dizer ou comentar. tudo que a gente queria no fim das contas era divertir um ao outro, contar uma piada realmente foda, elaborar os trocadilhos mais impressionantes, elaborar a tirada certa na hora certa. quem sabe, e por quê não, dar um conselho a altura das tristezas de cada um ali. a noite parece que acabou morrendo nela mesma. ninguém ali marcou um novo encontro pra daqui á alguns dias. o Gurp volta pra São Paulo e eu nem sei o telefone dele. o CDX vai viver com a guria dele lá…e assim as coisas seguem. tudo muito simples, como um prato de ovos com picles. sem nenhum conto épico, sem maiores batalhas ou concertos de rock.

a gente simplesmente acaba se trombando um dia desses, até que ninguém se dê conta de nossa ausencia.

Categorias: crônica

Dos heróis

Janeiro 25, 2009 · 1 Comentário

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Este texto foi publicado há um bom tempo (16/09/06), mas continua pertinente em minha opinião. O publico novamente por trazer a convicção de que os heróis de verdade estão mais humilhados do que nunca…e nós…bem,  nós perdemos a esperança no diálogo…

só para que conste…no fim da noite em que o texto foi escrito, nenhum herói apareceu!

 

 Nunca fui leitor assíduo de HQ ou manga, e olha que toda a minha geração colecionou esse material aí, tem até o Mauro, cuja monografia*  trata do tema. Isso porque desde cedo aprendi que herói não era um cara com superpoderes, com charme irresistível como pintam os produtores de quadrinhos norte-americanos. Cedo aprendi que herói é um cara que dá duro, cria filhos, o único catálogo no qual consta seu nome é o catálogo de inadimplentes. Herói fuma cigarro barato, freqüenta bares, e foi justamente nos bares que conheci os maiores heróis; o Cássiu, que hoje é certamente o maior mito da padoka, bar com tradição marxista na passarela da UEM, o Tiago, que além de alcoólatra profissional e parceiro do Cassiu, é também um grande professor de história. Tem ainda os da velha guarda, o Didi, que abandonou sua carreira de advogado após uma frustração que até hoje não sei qual é – embora tenha com ele tomado tantos porres que só o fígado é capaz de contabilizar –  para dedicar-se à vida diletante.tem o Salomão, que leciona música. Tem muitos outros, que não serão contemplados aqui porque não vem ao caso mesmo, embora mereçam ser lembrados na mitologia etílica maringaense.

 Com essa gente eu aprendi as maiores lições, coisas que realmente valeram á pena ter aprendido, tais como truques para ganhar alguns trocados em caça níquel, as misturas possíveis entre os etílicos, a que horas a festa realmente começa, até coisas mais academicistas, como quem são os cineastas, os autores, os compositores, os crápulas que usam terno, os heróis que são marginalizados…nos bares eu aprendi os macetes possíveis e compreendi a real função do conhecimento.

De uns tempos pra cá, os bares deixaram de ser tão bem freqüentados, até msm o assador, butequim no qual você poderia encontrar há pouco tempo,na mesa 8 o Mateus Fiquer, o Glauco Fonzar e eu, donos da mesa, e eventualmente os sócios itinerantes, tais como o Rudah, Conde e a Lê, namorada do Glauco. O assador não apresenta mais seus velhos heróis, a mesa na qual montamos uma banda, belas canções, um projeto de cinema, construimos sonhos e muita história bonita pra contar. Hoje ninguém senta na mesa 8. A padoka perdeu seu glamour, o velho tribus-bar, lugar em que conheci os mais promissores caras da minha geração,  hoje é freqüentada por uma garotada bem menos elegante. O bar do Mauro, palco de tantas aventuras, desventuras e memoráveis bravatas, hoje é freqüentado por calouros de agronomia, que gritam obcenidades ás garotas que passam.

Saudosismo meu, mas sinto falta do tempo em que tu ia ao bar pra discutir com a moçada, aprender alguma coisa, improvisar um poema, se apaixonar. Saudade do tempo em que tu ia ao bar, sem avisar ninguém porque tava triste demais, e chegando lá encontrava toda a turma chateada por razões diferentes e se consolando mutuamente com doses industriais, e no fim de noite, litros entornados, cigarros apagados, todo mundo pronto pra qualquer aborrecimento, aquela turma bastava para que as adversidades perdessem seu tom de insuperável.

 Lamento que nos tenham roubado sonhos e ideais. Lamento que a tv tenha matado o bar. Sim, há quem deixe de ir ao bar rever a galera para ficar frente à tv. Lamento que os cartolas tenham roubado nosso futebol, que a indústria tenha roubado nossa música, que o marketing tenha matado a poesia. que a inadimplência tenha matado os verdadeiros heróis. Como não aprendi a “cronicar” noutro lugar, escrevo esta no bar, que sempre foi meu escritório, desde que entrei num pela primeira vez com o intuito de beber e conversar, há pelo menos uns 10 anos.

Vou esperar pra ver, derrepente apareça um herói por aqui, porque também aprendi que os heróis somem eventualmente, sobretudo quando a conta do bar já os impede de dar as caras, mas retornam sempre para quitar suas dividas e recomeçar uma nova saga. Enquanto isso, assisto garotos acelerando automóveis com uma música ensurdecedora e penso que talvez seja melhor os heróis não estarem presentes para ver esse tipo de mesquinharia exibicionista.

*ROCHA, Mauro Sergio da; A Sociedade em Quadros- o Encontro com o Diferente a Partir do Estudo dos X-MEN.2005.

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