
“ Meninas boas vão para o céu.
As más vão onde querem”.
As meninas más conduzem selvagem ou suavemente
Suas vidas, o beijo, a relação ou nossas picas.
As meninas más esquecem teu nome, mas despretensiosamente,
Ligam pro teu número, só pra perguntar quem é .
Mentira, elas ligam pra te escrachar mesmo, pra te lembrar que…
Que você foi esquecido. Porque era merda demais para ser lembrado.
Depois desligam arrependidas, e saem com as amigas.
As meninas más voltam sozinhas pra casa
O fazem, como quem cumpre um rito intimo, como
Quem rele a própria biografia, pra lembrar quem realmente é.
As meninas más voltam sozinhas, na noite escura. E a pé.
Elas não querem tua carona. Nem tua companhia.
Elas não querem um babaca romântico interrompendo
Sua liturgia.
As meninas más… depois de um tempo contigo,
Elas não te dão perfume francês,
Só porque você tem “cheiro de machinho”
E pra elas, isso basta.
Para essas garotas, tanto faz se você faz economia na usp,
fala três idiomas, ou é semi-analfa.
Porque elas não querem um cara super refinado, com bons modos
E que tenha lido a obra completa do Machado.
Pra elas isso não significa nada.
Se você leu o texto até aqui, você não é uma menina má,
Porque uma menina má jamais perderia seu tempo
com um texto sobre “meninas más”
Elas não perdem tempo com coisas sobre si mesmas.
Na verdade as meninas más, elas temem… mas só querem
Se apaixonar. Se apaixonar perdidamente de preferência.
E dividir a conduta de suas vidas, do beijo, da relação… e voltar
Pra casa de mãos dadas.
Mas elas não falam sobre isso.
Elas jamais admitiriam isso.
Jamais.



Sullivan gostava de explorar os sentidos, tinha algo a ver com o fracasso de seus próprios sentidos, eu acho. Na década anterior, fora apontado como um dos nomes mais promissores da literatura nacional. Seu poema épico experimental “marrom punheta”, alguém parte algo se rompe” foi premiado até no exterior. Não que ele ligasse pra isso. Isso tudo, porém, foi antes das 12 paradas cardíacas que consumiram suas vaidades. Pois é, ele garantia que poesia experimental é diretamente proporcional a auto-estima do sujeito. Eu costumava ir ao sítio de Sulli. Era recepcionado pelo que ele chamava de cão-guia. Ele comprou o cão porque estava cego. Ele precisava de um guia. Ele nunca percebeu que o cão era tão cego quanto ele. E quem poderia culpa-lo? Ele precisava acreditar que algo ou alguém o guiava. Deve ser isso o que sobra para um sujeito que foi esquecido. Eu sentava ao lado de Sulli e lia para ele os jornais locais. Discutíamos, as vezes ele ria um pouco das tragédias dos outros. Só as vezes. Não havia crueldade nisso, parecia mais uma profunda compreensão humana , uma espécie de altruísmo o que o fazia rir daquele jeito. Rir como quem chora. Era assim que ele ria. Ou talves fosse uma outra forma de explorar os sentidos. Como quem assovia uma canção de esperança num disco sobre desespero. Ontem, ao chegar ao sítio, Dudu, o cão cego não venho me recepcionar. Na ausência do cão intui o que encontraria. Dentro da casa, o cão estava deitado aos pés de Sulli, como quem não se move, pois não há uma voz a guia-lo. Sulli tomou os remédios para o coração com pinga mineira. Acho que tinha algo a ver com explorar os sentidos. Embora o poeta estivesse morto, li para ele as noticias, como fazia religiosamente. Em sua fisionomia havia um sorriso. O último sorriso daquele homem. Liguei para as autoridades para informar a morte do poeta. Embora, eu, Sulli e o cão fossemos ateus, fiz uma oração que aprendera na infância. Me despedi do amigo morto e levei Dudu, o cão cego comigo. Não havia nenhuma compaixão neste ato. Eu apenas compreendera de súbito que todo mundo precisa de algo, mesmo um pobre cão cego, para chamar de guia.