
__olha ali ó, é da ordem Lepidoptera.
Quando ela disse isso, pensei que se referia á alguma confraria secreta, como a ordem dos advogados ou a ordem dos obsessivos, dessas em que os membros têm códigos para se reconhecer e graus hierárquicos que respeitam mais do que aos pais. Daí eu fiz cara de interessado e ela continuou;
__ É da classe dos insetos, que reúne quase um milhão de espécies. O corpo destes animais é dividido em cabeça, tórax e abdome. Animais aparentemente simples, você não acha?
Eu nem havia me dado conta da simplicidade daquilo. Cabeça, tórax e abdome. Na verdade, eu não sabia que o resto dos animais era mais complexo do que isso. Pra mim, tudo se resumia a estes três pontos, cabeça, tórax e abdome. Mas havia tanta paixão em sua voz, que eu de pronto confirmei com a cabeça, movendo-a para cima e para baixo repetidas vezes.
__ É, mas é muito complexo o funcionamento destes animais. Você sabia que existem lepdópteros que vivem apenas 24 horas, Carlos? Em 24 horas cumprem seu dever ecológico e partem. Fecunda outro animal, põe ovos, poliniza flores, encanta olhos humanos com suas cores e seu vôo, para em seguida morrer, em via de regra, como alimento para pássaros, mamíferos, peixes…
É claro que eu não sabia. Quem é que sabe dessas coisas? E além do mais, porque é que alguém precisa saber disso?
Na verdade, quanto mais ela falava, mais eu começava a me interessar pelo assunto. Em questão de minutos descobri em mim, um profundo interesse por animais esquisitos. Eu não me cansava de ouvi-la falar sobre esses animais. Era isso, eu não me cansava de ouvi-la, e fosse o que fosse, despertaria meu interesse. Eu não podia deixa-la parar de falar, e quase que espontaneamente eu disse “LEPDÓPTERA”. Não sei porque disse isso, mas foi tiro certeiro. Me lembro dela saltitando de alegria e dizendo
__ isso, isso mesmo Carlos, você pega rápido!!!
Eu me senti um gênio, e repeti;
__lepdóptera, ordem lepdóptera!!
Eu havia descoberto um meio de fazê-la feliz. Era só repetir aqueles nomes. Com o tempo, também aprendi a fazer as perguntas certas, tipo;
__do que é que esse animal se alimenta? Como foi que sobreviveu no processo evolutivo? Como é seu processo reprodutivo? Quais seus hábitos e habitat?
Essas perguntas podiam ser feitas em qualquer caso. E sempre que as fazia, era como se perguntasse algo nunca pensado antes na história da ciência biológica. Ela respondia com espanto e paixão, depois me levava para seu apartamento, para consultarmos juntos as referências bibliográficas e ver alguns exemplares de sua coleção de animais exóticos. Nossas pesquisas acabavam na cama dela. Eu me tornara um aluno exemplar. Assíduo e dedicado. Em pouco tempo eu já sabia detalhes profundos sobre filos tão distintos… Eu sabia a diferença entre filo, classe e ordem e mais uma porrada de coisas… eu sabia alguma coisa, pela primeira vez na vida eu sabia algo.
Acho que já sabia tudo o que ela podia me ensinar sobre taxonomia. Estava orgulhoso disso.
Mas, como todos os animais e plantas que existem, após cumprir seu ciclo, sua missão ecológica, no caso dela, transmitir sua paixão e conhecimento pela natureza, ela partiu.
Deixou um aviso no espelho.
Acho que dizia “vou para o México com uma garota mais nova, mas profundamente interessada em vírus raros”.
Á época, me lamentei e não entendi. Me recusei a aceitar. Hoje, estou convencido definitivamente, a natureza é sábia.




