
Du-nas
__ Vai doer.
E doeu. Ela ia me dizendo á quanto tempo tinha um caso. As cenas mais cruéis se passavam uma após a outra em minha cabeça. Fui acometido irremediavelmente por um forte sentimento homicida.
Por alguma razão, meu corpo não se movia. Uma descarga de dopamina. As catecolaminas, de todas elas, sempre preferi a dopamina.
Lembrei daquele cara que disse, “não tem problema meu amor, nós vamos superar isso tudo”.
Senti pena dele. Apenas um profundo sentimento de inferioridade ou culpa leva um sujeito a acreditar que uma coisa dessas pode ser superada, alguém deliberadamente domesticado, ou, um sádico intratável, que com a suposta superação, pretende atormentar para sempre sua companheira, fazendo-a lembrar que foi infiel um dia, e portanto merece ser dirigida em sua conduta, amputada em sua liberdade, castrada em seus desejos e sonhos. Tive pena daquele babaca. Merecia mesmo ser corneado. Eu também merecia aquilo, tantos anos dedicados ao trabalho, algum dia a casa tornar-se-ia atraente para um dom Juan de passagem pela cidade, um vizinho acolhedor, um amigo conselheiro.
Ela continuava falando, e por fim me disse… Adivinhem o que ela disse…
__ Podemos superar isso meu amor, é só uma fase ruim… A gente pode fazer uma viagem para o Maranhão, conhecer os lençóis Maranhenses… Você sabe, sempre sonhou conhecer o Maranhão.
Eu ri. Eu sempre detestei o Maranhão, detesto areia. Ela só podia estar tentando acabar de vez com aqueles dez anos de confiança mútua e companheirismo me convidando para ir ao Maranhão. Nunca ouvi dizer que os lençóis Maranhenses salvavam casamentos.
Pensei, porém que podia sufocá-la na areia. Enterrá-la sob os lençóis brancos daquelas dunas. Ela continuava a falar sobre as belezas do maranhão. E eu continuava a detestar o Maranhão.
As idéias homicidas iam diminuindo de intensidade, foram cedendo espaço a pensamentos mais alentadores. Tudo acabaria bem. Sempre acaba. Eu abandonaria aquela casa, continuaria com o trabalho, talvez fosse necessário freqüentar uma terapia durante um tempo, tomar remédios para ansiedade, uns porres com alguns clientes, sei lá, mas era questão de tempo até que tudo voltasse ao normal. Após a depressão inicial eu iria conhecer outras garotas mais jovens e cheias de sonhos, me apaixonaria outra vez. Eu não precisava matá-la, ou ofendê-la, era só me levantar e sair pela porta. E foi exatamente o que eu fiz. Sem dramas, sem ataques histéricos, sem tentativas frustradas de reconciliação. A vida não era um palco, as ações causavam reações, tudo estava incrivelmente claro. Eu não disse nada, apenas sai pela porta.
Soube dois anos depois, ela havia matado o amante. Ela o flagrara com outro cara. Pasmem, outro cara. Suicidou-se em seguida me deixando uma carta, que nunca fui pegar para ler. Pra ela, a vida era um palco, exigia encenações, explosões de raiva, ódio, hostilidade. Sua vida não permitia mudanças.
Lembrei dela enquanto contemplava essas dunas… Ela tinha razão, o Maranhão é mesmo lindo, acho que ela teria gostado de conhecer, talvez até salvasse nosso casamento.





