Templo inpuro

WILD WEST

Junho 26, 2009 · 2 Comentários

paris texas-wim wenders

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Todo dia, ao fim da tarde, Keine limpava a carabina que ganhara de seu pai. Ele apenas se sentava na soleira da porta, acendia um cigarro de palha, e desmontava a velha espingarda. Limpava peça por peça e depois ele a montava com a paciência de quem sabe que para cada coisa no mundo, não há apenas um lugar, mas há o seu lugar, lugar que não pode ser ocupado por nenhuma outra coisa. Aquele homem, em sua vida modesta, aprendera a ter paciência porque sabia que a forma segue a função, e para todo conteúdo há um continente, e para tudo há uma hora, e esta hora um dia chegaria.

Executava este mesmo ritual religiosamente há mais de duas décadas. Era assim que ele assistia ao cair da tarde. Era assim que ele via a vida passar.

Este ritual começou quando seu único filho morreu misteriosamente. Na ocasião Keine prometeu nunca mais encarar a deus. Seu ritual tornou-se mais importante após a morte da esposa. Keine culpava a Deus por ter levado filho e esposa antes dele – é do conhecimento de todos, que a gente precisa culpar alguém por aquilo que não entendemos – Keine culpava deus, e jurou em sua última oração, ao lado do corpo da esposa, que seria o homem responsável pela morte de deus – porque também é de conhecimento geral, que fazer promessas ao lado de cadáveres, nos faz sentir-se mais dignos.

Então ele se sentava á soleira da porta e esperava deus a todo cair de tarde- deus devia ter muitas atividades durante o dia, era o que o fazia pensar que ao fim da tarde o homem de repente apareceria, após resolver suas coisas de deus- Por isso limpava bem a espingarda que ganhara de seu pai, e tinha sempre uma bala guardada para o encontro. No mais a vida passava sem remédios. Para aquele velho, a vida não tinha cura e a morte era irremediável. Keine aprendera à acreditar em cruéis verdades, e culpava a deus por isso –sim, keine culpava deus por muitas coisas-.

Keine não recebia visitas para um chá ao fim da tarde, pois não queria testemunhas presentes quando encontrasse com deus, além do que, não sabia preparar chá como a falecida esposa.

Foi assim que o tempo passou e deixou suas marcas no rosto e no corpo de Keine. Sua vida foi se enchendo de vazios, de silêncios e de desassossegos, até tornar-se definitivamente uma longa espera por um único encontro. Nada mais importava além da hora derradeira.

Numa tarde, ele se deu conta de que talvez não lhe restasse muito tempo, e temeu não realizar a vingança que prometera ao filho e a esposa. Já estava muito cansado, seu corpo já não era forte o suficiente para uma batalha. Sua visão não permitia disparos a longa distancia. Então ele decidiu que seria a última tarde que esperaria. Pensou e concluiu, se ao cair do sol deus não aparecesse, ele o encararia e faria sua justiça. Com exceção de um negro e um índio bêbados, nada mais cruzou pela estrada que passava por sua propriedade. Keine tomou coragem após dar o último trago em seu cigarro.

Montou a espingarda, verificou se a bala estava na agulha e exatamente ás 19 horas ele caminhou ao descampado e decidiu encarar a deus. Foram 20 anos sem olhar para o céu, e ás 19 horas e alguns minutos ele o fez.

Um padre encontrou o corpo de Keine na manhã seguinte, estava sem vida junto á sua carabina descarregada. Keine apresentava ferimentos por todo o corpo, o que significava que antes de morrer, ele havia passado por uma luta corporal, bem como disparado em algo ou alguém.

No enterro de Keine, o mesmo padre que o encontrou sem vida, afirmou que o responsável pela morte daquele homem inocente e com o qual a vida não havia tido nenhuma compaixão deveria ser assassinado. Mas ninguém conhecia alguém com quem Keine tivesse brigado, de modo que nunca descobriram quem assassinou aquele pobre homem. Diz a lenda.

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