Templo inpuro

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Espalhem por aí, boatos de que eu ficarei aqui

Maio 28, 2009 · 2 Comentários

Du-nas

Du-nas

__ Vai doer. 

E doeu. Ela ia me dizendo á quanto tempo tinha um caso. As cenas mais cruéis se passavam uma após a outra em minha cabeça. Fui acometido irremediavelmente por um forte sentimento homicida. 

Por alguma razão, meu corpo não se movia. Uma descarga de dopamina. As catecolaminas, de todas elas, sempre preferi a dopamina. 

Lembrei daquele cara que disse, “não tem problema meu amor, nós vamos superar isso tudo”.

Senti pena dele. Apenas um profundo sentimento de inferioridade ou culpa leva um sujeito a acreditar que uma coisa dessas pode ser superada, alguém deliberadamente domesticado, ou, um sádico intratável, que com a suposta superação, pretende atormentar para sempre sua companheira, fazendo-a lembrar que foi infiel um dia, e portanto merece ser dirigida em sua conduta, amputada em sua liberdade, castrada em seus desejos e sonhos. Tive pena daquele babaca. Merecia mesmo ser corneado. Eu também merecia aquilo, tantos anos dedicados ao trabalho, algum dia a casa tornar-se-ia atraente para um dom Juan de passagem pela cidade, um vizinho acolhedor, um amigo conselheiro. 

Ela continuava falando, e por fim me disse… Adivinhem o que ela disse…

 __ Podemos superar isso meu amor, é só uma fase ruim… A gente pode fazer uma viagem para o Maranhão, conhecer os lençóis Maranhenses… Você sabe, sempre sonhou conhecer o Maranhão. 

Eu ri. Eu sempre detestei o Maranhão, detesto areia. Ela só podia estar tentando acabar de vez com aqueles dez anos de confiança mútua e companheirismo me convidando para ir ao Maranhão. Nunca ouvi dizer que os lençóis Maranhenses salvavam casamentos. 

 Pensei, porém que podia sufocá-la na areia. Enterrá-la sob os lençóis brancos daquelas dunas. Ela continuava a falar sobre as belezas do maranhão. E eu continuava a detestar o Maranhão. 

As idéias homicidas iam diminuindo de intensidade, foram cedendo espaço a pensamentos mais alentadores. Tudo acabaria bem. Sempre acaba. Eu abandonaria aquela casa, continuaria com o trabalho, talvez fosse necessário freqüentar uma terapia durante um tempo, tomar remédios para ansiedade, uns porres com alguns clientes, sei lá, mas era questão de tempo até que tudo voltasse ao normal. Após a depressão inicial eu iria conhecer outras garotas mais jovens e cheias de sonhos, me apaixonaria outra vez. Eu não precisava matá-la, ou ofendê-la, era só me levantar e sair pela porta. E foi exatamente o que eu fiz. Sem dramas, sem ataques histéricos, sem tentativas frustradas de reconciliação. A vida não era um palco, as ações causavam reações, tudo estava incrivelmente claro. Eu não disse nada, apenas sai pela porta. 

Soube dois anos depois, ela havia matado o amante. Ela o flagrara com outro cara. Pasmem, outro cara. Suicidou-se em seguida me deixando uma carta, que nunca fui pegar para ler. Pra ela, a vida era um palco, exigia encenações, explosões de raiva, ódio, hostilidade. Sua vida não permitia mudanças.

Lembrei dela enquanto contemplava essas dunas… Ela tinha razão, o Maranhão é mesmo lindo, acho que ela teria gostado de conhecer, talvez até salvasse nosso casamento.

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NARCISO MODERNO

Abril 1, 2009 · 1 Comentário

 

NARCISO MODERNO

 

Ao deparar-se com o reflexo na água límpida da piscina, não se encantou.

Nem um pouco, na verdade.

Na verdade, ele detestou.

Lembrou, porém.

Dos olhos da mãe.

Fora naqueles olhos verdes que viu a si mesmo pela primeira vez.

De seu reflexo no espelho do banheiro. Era uma rodoviária no interior de sabe-se lá onde. Aquele espelho exibia a imagem de um jovem perturbado e viciado em coca. Aquele jovem fugia. Sempre. fugia… O espelho fazia questão de denunciar essa e tantas outras fugas.

Lembrou dos olhos de Joana, o primeiro amor.

Essas lembranças diziam algo sobre si… O reflexo que encarava na água da piscina, entretanto, mais iludia do que revelava.

Ele era o passado, concluiu.

E se angustiou com aquela constatação.

Foi somente quando as gotas de sangue – que escorriam de seus pulsos cortados- começaram a cair sobre a água e deformar seu reflexo em cores e movimento, que ele percebeu.

Aquele reflexo o revelava. De muitas maneiras o revelava.

Era muitas coisas, podia ser tudo. ‘Tudo junto e misturado’.

Só então teve uma breve noção de quem era.

Sorriu como nunca havia sorrido, afinal, fora por essa razão que fugira anos atrás, pela mesma razão cortara os pulsos minutos antes… Para encontrar a si mesmo.

Agora, aquela imagem distorcida e misturada ao sangue, lhe revelava sua identidade.  Lhe revelava algo sobre si, sobre o mundo, sobre a vida.

Era tarde, já perdera muito sangue, por sorte, não teve tempo para se arrepender.

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HISTÓRIA COMUM de um cara comum

Março 10, 2009 · Deixe um comentário

 ESTE TEXTO, PUBLICADO HÁ UMAS DÉCADAS ATRAS, Á ÉPOCA, O HAVIA DEDICADO AO MEU AMIGO GLAUCO.

HOJE O REPUBLICO, O DEDICO A TODO HOMEM SÓ (por vocação ou fatalidade), SEJA ELE QUEM FOR, ESTEJA ONDE ESTIVER!

A literatura, o cinema e o teatro criaram uma imagem estereotipada do sujeito que carrega uma marca, o cara que trás consigo um segredo, uma desilusão, um fracasso, enfim, o que Hesse chama de MARCA, apenas. Eles sempre são retratados de modo que ao bater a vista sobre eles você logo saca que aquele sujeito tem alguma coisa que o resto de nós não tem, um jeito enigmático de contemplar o mundo, um humor negro que beira ao niilismo, frases muito bem elaboradas, um olhar vago sempre distante, como se o cara estivesse sempre a olhar para um outro tempo, que não aquele no qual ele está inserido, para outras pessoas que não aquelas que com ele sentam-se á mesa. Isso tudo dá ao sujeito, homem ou mulher, feições sedutoras e em via de regra irresistíveis. Na vida real não é bem assim, tu encontra diariamente pessoas que riem e falam besteira o tempo todo, que andam de acordo com o que lhes é dito pra andar, freqüentam festas e no meio da multidão nada lhes difere dos demais. E todos eles contam uma história particular rica em dramas e comédias que preencheriam roteiros para grandes obras do cinema mundial. É o caso de nosso protagonista, que em se tratando de história tão comum, não recebe nome que lhe distinga dos demais. É um cara comum este, com uma história como a de tantos outros. Aconteceu-lhe de ter sofrido, como sofremos nós todos que habitamos o planeta terra. Mas este sofrer não é visível aos olhos de quem o vê passar, nem mesmo, a quem com ele discute a aleatoriedade do sentimento de plenitude é dada a habilidade de encontrar em sua fala articulada evidências de um sofrer. Não há nada. Mas ele sofre, talvez o leitor não tenha ainda se apercebido, mas ele foi mortalmente ferido, embora, não seja visível tanto sofrer.
Como diz o mote daquele belo filme de Thomas Andersem, “o passado já era pra nós, mas não nós para o ele”. É no passado que se encontram as explicações para o sofrimento atual de nosso protagonista. Á época deste acontecimento que o marcaria, ele não sabia que posteriormente seria parte desta narrativa, , excluindo portanto, qualquer possibilidade de a história estar comprometida com a promessa de uma futura crônica baseada em sua história, o que tornam as coisas mais verossímeis aos olhos do leitor. Á época também não sabia que seria a última vez que diria EU TE AMO para alguém, e por isso aqui iniciamos o caso do moço; ele disse EU TE AMO, e foi para o trabalho, como convém a quem sai para o trabalho dizer sempre ao objeto de seu amor; “eu te amo”, a fim de evitar a possibilidade da dúvida e de telefonemas indagadores no meio de uma reunião de negócios, ou , de um almoço com o chefe. Voltou do trabalho e não estava lá o objeto de sua afeição. Ele chorou. deu telefonemas, mandou emails , fez uma viagem, mandou cartas, flores, bebeu, ligou bêbado e chorando, como o fazem os bêbados rejeitados em todo o lugar deste mundo de homens bêbados e rejeitados. Ele fez anos de terapia, conquistou outras mulheres, foi conquistado por outras, se entregou ao trabalho. Recebeu promoção. ocupava agora cargo máximo na empresa na qual trabalhava, tinha altas responsabilidades e adquirira respeito e prestigio. Comprou um carro, uma máquina de lavar, que não convém á homem sozinho não ter maquina em casa, já é de conhecimento geral que lavar roupas não é especialidade de homem nenhum. Comprou um cachorro,  um peixe, discos do Miles Davis, colecionou entradas de shows e garrafas de bebidas. E todos o queriam muito bem, e ele a todos queria bem, arranjou até um cargo bem remunerado á um amigo que andava numa pior. Era um sujeito e tanto, desses com quem se pode perder uma noite conversando sem se dar conta do tempo que passa. E a todos não foi dada a capacidade de ver ali, um homem que há anos não se permitia dizer EU TE AMO. E ninguém mais lembrava daquela que o abandonara há anos atrás. Mas ele nunca esquecera. E ninguém nunca percebia que por trás daquele homem que tanto se dedicava aos amigos, ao cachorro, e ao trabalho (o peixe não que este já morrera nesta altura do texto) tinha os olhos úmidos. Sempre o acompanhou estes olhos úmidos e a impossibilidade de dizer EU TE AMO. Mas eram só estas marcas que o acompanhavam depois daquele dia em que pela última vez dissera eu te amo, e que á época ainda não sabia ser esta a sua última declaração de amor. E ninguém nunca percebera nele estes detalhes. E é assim ao homem comum. Que tem histórias e histórias sem fim, belas, ternas e dramas, mas nada de especial há em nenhum deles, que torne isso visível aos que o olham. Nosso protagonista não cortou os pulsos, apenas seguiu sua vida, sempre com um vazio e um olhar úmido, casou, teve filhos. É assim no mundo, o tempo todo desde sempre. A vida prossegue, o passado muitas vezes se faz presente, mas a festa tem que continuar. As marcas ficam. invisíveis ao olho comum. letais ás vezes, mas ninguém além de ti as vê. 

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picles com ovos

Janeiro 31, 2009 · 5 Comentários

reencontrei alguns amigos noite passada. eles estavam diferentes. tava lá o Gurp, o CDX, o Art…pois é, os caras têm apelidos estranhos, e aparentemente vivem suas vidas com dignidade. depois de todo o tempo que o mundo nos impôs, que se configurou em distancia e qualquer outra coisa, a gente se tromba e bebe algumas latas, relembra as bravatas e constata que não foi nem é feliz.

ninguém perdeu o pai por causa de um AVC fulminante, ninguém fez uma longa e inesquecivel viagem, nenhum daqueles caras desbravou novos mundos, fez sucesso ou se paixonou de verdade. praticamente nada aconteceu em 2 ou 3 anos. ninguém parecia preocupado em ter algo incrivel pra dizer aos outros. mas eu percebi em certa altura, que havia no ar um constrangimento, como se todos eles esperassem mais uns dos outros. ninguém ali estava realmente feliz.

a vida vai seguindo e a gente vai sendo levado por ela. nada mais pra dizer ou comentar. tudo que a gente queria no fim das contas era divertir um ao outro, contar uma piada realmente foda, elaborar os trocadilhos mais impressionantes, elaborar a tirada certa na hora certa. quem sabe, e por quê não, dar um conselho a altura das tristezas de cada um ali. a noite parece que acabou morrendo nela mesma. ninguém ali marcou um novo encontro pra daqui á alguns dias. o Gurp volta pra São Paulo e eu nem sei o telefone dele. o CDX vai viver com a guria dele lá…e assim as coisas seguem. tudo muito simples, como um prato de ovos com picles. sem nenhum conto épico, sem maiores batalhas ou concertos de rock.

a gente simplesmente acaba se trombando um dia desses, até que ninguém se dê conta de nossa ausencia.

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Copo Vazio

Setembro 30, 2008 · 7 Comentários

Nota explicativa: Achei estas palavras escritas num diário bem velho que eu ganhei. Tentei lembrar o nome da Guria que deu o tal presente, mas só lembro que deu, o nome eu esqueci. Em fim, não sei nem ao certo se este texto realmente é meu, mas estava no diário. Bem, diário é uma coisa bem pessoal, então sei lá, Foda-se. Foi escrito com a Bic metal point, a que eu mais gosto de usar. Verdade seja dita; meu ou não, o texto estava ali e eu gostei…

O cheiro acre e enjoativo de urina seca e banheiros mal cuidados invadiu sua garganta fazendo-lhe respirar, instintivamente, de maneira mais profunda que seu peito dolorido de sol lhe permitia. Aquele banheiro não combinava com a classe aparente do lugar. Assim como ele não combinava. O álcool não deveria combinar com seus lábios e a música não combinava com seus ouvidos.

Mas mesmo assim bebia. Mesmo assim permanecia ali. Ele, que prometera jamais beber novamente. Ele, que sempre cumpria as suas promessas, menos as que fazia a si próprio. Ele, que nem mesmo tinha um motivo melancólico ou depressivo, mesmo festivo, para beber. Tudo ia tão bem quanto sempre esteve. Quanto nunca esteve. Era apenas o tédio. Bebia apenas por tédio.

Estava sozinho olhando o mar na noite. Ao seu redor grupos de casais e amigos. Pareciam nem se importar com ele. Imersos em seus mundinhos de conversas fúteis e alegrias artificiais. Qualquer baile ou clube genuinamente popular, no sentido mais proletário da palavra, tem uma alegriamais pura, mais genuína que todas as comemorações burguesas genuínas juntas. Alta e verdadeira ou pretensa burguesia. A medida que enriquecem os convivas, mais artificiais e falsas se tornam suas manifestações, suas alegrias. E aquele era o lugar de alegria mais burguesa daquele balneário, pequeno e desconhecido quando comparado aos seus badalados vizinhos. Por isso, certamente, aquele era o mias badalado ponto de encontro dos veranistas preguiçosos ou temerosos em enfrentar uma estrada vazia à noite.

-A arte verdadeira só surge do sofrimento. – disse para si mesmo erguendo o copo. Por quê dissera aquilo? Não sei, nem jamais saberei. Nunca foi um Artista, nem por arte jamais se interessou. Qualquer tipo de arte. Para ele um Van Gogh e um quadro pintado por uma dama da alta sociedade e só exposto por ela poder pagar o salão e por méritos sociais tinham o mesmo valor. Na música tinha o desprezo por qualquer coisa não eletrônica. Das outras artes, mal sabia o nome. E agora falava de criação artística, como fosse ele um Mozart ou sofresse a mesma dor criativa de um Allan Poe.

Mas ninguém o ouviu, nem ele quis que alguém ouvisse. Nem perceberam que falara algo, pois não o olharam com aquele jeito ridicularizador e inquisidor para a sua espontaneidade solitária. E ele bebeu, bebeu em seu tédio. Comemorando-o e amaldiçoando-o. Depois levantou-se e, cambaleando, retomou a caminhada que o levaria de volta para casa.

Caiu num rio, quase um esgoto, que cortava seu caminho disfarçado em uma ponte e morreu afogado, desovando na praia, para delírio dos banhistas madrugadores.

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Pra mim tudo isso faz parte do passado

Agosto 1, 2008 · 1 Comentário

Ta legal, eu admito que fui mestre de cerimônias. eu era bom nisso.

Sempre acreditei que um homem tem que ser bom em alguma coisa.

Eu era um bom MC.

Eu admito, eu traduzi a letra man in the long black coat do Dylan, e tentei parecer o personagem da música desde então.

Sim, fui eu quem dei o primeiro tiro. Não sei se foi meu o disparo que atingiu a vitima.

Mas estou convencido; todo tiro sai pela culatra.

Confesso, fui eu a queimar aquele belo ninho de sal que cheirava a paraíso.

Hoje, é um paraíso perdido. Só um deles.

Mas e daí? Foda-se.

Eu sei, e muitos de vocês sabem, nasci com o pé na estrada, mas onde quer que eu esteja,

por mais longínquo o recanto e distinta a paisagem,

regresso sempre…sempre…sempre para o mesmo lugar.

Eu sei que levei ao tribunal todos aqueles que escreviam na primeira pessoa do singular.

estou convencido de que agi corretamente. Lamento, porém,  que não façam o mesmo comigo.

Ta legal, eu admito tudo.

Mas pra mim, tudo isso já faz parte do passado.

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VOLTO LOGO

Julho 16, 2008 · 1 Comentário

 

Volto Logo.Foi assim que ela se despediu. Em seguida fechou a porta e eu fiquei pensando naquele sujeito que saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.

Intuitivamente, sabia que aquela frase, aquele anuncio, “volto logo”, jamais se cumpriria.

Mesmo assim deixei as portas abertas.

 

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