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SOBRE O SILÊNCIO DAQUELES CARAS

Setembro 19, 2008 · 1 Comentário

 

de León-cabeça sangrando

James Dean oferecia seu corpo para que os freqüentadores de um bar em Hollywood apagassem seus cigarros. O cara gostava de carros, cerveja e maconha. Afirmam por ai que sua prioridade na escola era perder a virgindade. James Dean não tinha muitos amigos. Inegavelmente era um gênio das artes cênicas.

Andy Warhol é autor da frase “todos terão seus 15 minutos de fama”. Revelou o Velvet Anderground. é o pai da pop art .Segundo Robert Hugues, Warhol era um sujeito chato e sem nada a dizer, morreu após uma operação da vísicula biliar.

Mário Quintana foi um dos maiores poetas Brasileiros, natural de Alegrete (RS). Autor de uma obra rica em sutilezas e ingenua ironia. Morreu em um quarto de hotel em Porto Alegre. O hotel foi pago com o dinheiro dos amigos.

Hugo de León, é um uruguaio nascido em Rivera, jogava uma tremanda bola, na defesa e no ataque. Foi capitão do Grêmio durante uma temporada histórica, em que o clube gaucho foi campeão da libertadores e do mundial interclubes. Hoje é representante comercial e eventualmente vai a Porto Alegre torcer pelo Grêmio. O cara ainda tá na ativa, mas é de uma outra geração, de outros tempos.

Eventualemte, me flagro pensando nestes caras, em suas vidas, suas contribuições e em suas silenciosas despedidas.

O que passava na cabeça de James Dean, enquanto dirigia seu carro em alta velocidade, no momento anterior ao acidente que tirou sua vida?

Warhol chegou a pensar que sua obra estava finalmente completa quando encarou inexoravelmente sua efemeridade?

Quintana, teria acendido um cigarro e suspirado um poema?

Hugo de León ganha os royalties, daqueles que estampam seu rosto em camisetas e bandeiras? Ele pensa nisso?

Esses caras não falavam de si mesmos por ai, sabe. Eles não tinham essa pretenção. Tudo o que se sabe sobre eles consta em biografias lançadas póstumamente( exceto no caso de Hugo de León). O que importava para eles era suas obras, seus respectivos oficios, manja?! Como se eles sentissem que suas vidas fosse só um instrumento para que o sopro de vida se fizesse sentir através de suas obras. Não através de suas pequenas mesquinharias.

Um sujeiro como o James Dean, que era completamente solitário, que não sentia-se a vontade na companhia de garotas deve ter se sentido muito só a vida toda. Porra, o maior tesão do cara era ficar lá na biblioteca daquele reverendo, deitado no chão. Ele não passava a tarde discutindo o plano economico ou os caminhos da politica externa norte-americana. Ele só ficava lá deitado no chão da biblioteca.

Não consta que ele tenha ido á imprenssa e dito “garotas, me sinto muito só”. Ele continuou sua vida, mesmo com a fama ele continuou lá, falando pouco e passando a maior parte do tempo deitado na biblioteca do reverendo. Pra ele isso era importante, e portanto, sagrado.( sem sacanagem, porra!)

O Quintana nunca deu uma entrevista dizendo algo do tipo  “ah pessoal, eu queria dizer a vcs que eu ando meio sem grana sabe!?  Se alguém puder passar aqui e me deixar uma quantia, poxa, eu dedico meu próximo livro e tal”. Que nada, e também nunca saiu por ai dizendo que a ABL não o reconhecia.

Em tempos de monocultura como os atuais, eu vejo isso como algo tão distante do atual universo artistico. Eu não sei se esses caras não tinham o que dizer, mas acho uma coisa nobre eles não terem dito nada, preservando assim sua intimidade. O valor que lhes é atribuido, é exclusivamente por suas contribuições. Eu não tenho uma palavra pra definir isso. Mas, no caso dos citados, é o que mais admiro, mais até do que suas obras.

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ser Gremista, por Humberto Gessinger

Agosto 29, 2008 · 1 Comentário

meu pequeno gremista

“CALMA!! CALMA!!” é o técnico Valdir Espinosa à beira do gramado tentando fazer o time acreditar que falta pouco para o Grêmio ser campeão mundial interclubes. O tom da voz entrega: nem ele parece acreditar no que vê. 

“CALMA!! CALMA!!” o grito absurdo da voz rouca parece dizer o contrário. Alguém que não entendesse português (os japoneses no estádio de Tóquio, por exemplo) poderia jurar que o significado das palavras urradas era outro: “PÂNICO!!PÂNICO!!” 

Renato, um gaúcho que sonhava ser carioca, faz dois gols: somos campeões batendo o Hamburgo da Alemanha com a alma castelhana misturada a habilidosos pistoleiros de aluguel. Uma mistura impossível de Hugo De Leon e Paulo Cesar Caju. Geograficamente entre o tango e o samba. 

O ano é 1983 e a década inicia promissora. Os anos setenta foram cruéis para o imortal tricolor: no lado de lá se via Figueroa, Falcão, Carpegiani, um céu vermelho sobre o Rio Guaiba. Eu deveria negar até a morte, mas a verdade é que, nos primeiros grenais que assisti, o empate parecia um grande negócio. Nova década, a gangorra do futebol gaúcho parecia estar mudando de posição. 

“CALMA!! CALMA, PORRA!! Talvez forma e conteúdo nunca tenham estado tão afastados. Assim como nada pode estar mais distante do ufanismo de um hino do que a dor de cotovelo de um samba-canção. E foi justamente Lupicínio Rodrigues quem prometeu “Até a pé nós iremos / para o que der e vier / pois o certo é que nós estaremos / com o Grêmio onde o Grêmio estiver” 

Nosso hino sempre me pareceu mais a promessa de um amante fazendo a ronda nos bares do que o juramento de um guerreiro. Mas é como guerreiros praticantes de um futebol rugby que somos vistos pelo resto do Brasil. 

Longe demais das capitais, nunca fomos importantes para a seleção brasileira. Ganhamos campeonatos nacionais e Libertadores da América sem ter jogadores convocados. Em 1970, no México, tínhamos Everaldo… reza a lenda que ele só foi titular por que alguém tremeu. Eu tinha 6 anos e fui ao aeroporto vê-lo chegar com a taça Jules Rimet. Para nós a seleção era ele mais dez. 

Ser gremista significa qualquer coisa menos tédio… é gritar desesperadamente: CALMA!!… é comer o mingau quente pelas bordas e saber que, no bom churrasco, a melhor carne está perto do osso. Nosso time faz milagres, mas quase sempre prefere os caminhos mais tortuosos. 

Jogar o gauchão no inverno não é nada parecido com futivôlei em Ipanema. Me lembro de um jogo à noite na serra gaúcha (Bento Gonçalves, Garibaldi, Caxias… não sei) disputado com neve caindo. Nossa camisa já é bonita contra o verde; sobre o branco, o azul-preto-branco ficou mais blues-samba-canção. 

Torcer pelo imortal tricolor dos pampas é ter certeza de que nada é certo. É ir para a Segunda divisão pouco depois de ser campeão do mundo… é voltar a disputar o título mundial e engrossar um jogo tido como ganho pelo Ajax da Holanda… é ganhar uma copa do Brasil do Flamengo num maracanã lotado… é perder uma copa do Brasil para o Corínthians no Estádio Olímpico e cantar o hino com orgulho ao final do jogo… 

Aqui na ponta do mapa a gente não sabe muito bem o que é ser gaúcho… ser gremista é parecido com isto. É chamar de Felipão quem os paulistas chamam Scolari… é começar o time com um bom zagueiro… o número 10 a gente vê depois. 

No fim de um show que fizemos num Morumbi lotado, agradeci: “Valeu pessoal, foi um prazer tocar em frente à goleira onde Baltazar fez o golaço contra o São Paulo que nos deu o título brasileiro de 1981!” Recebi a maior e melhor vaia da minha vida. 

Ser gremista é achar que dá.
Humberto Gessinger – Porto Alegre
Publicado originalmente na revista VIP

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gremio cantando na chuva

Agosto 20, 2008 · Deixe um comentário

encontrei uma bela matéria sobre o imortal tricolor no site da fifa; o endereço é o seguinte;

singing in the rain.

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TEMPO DE MATAR A MORTE

Julho 15, 2008 · 2 Comentários

www.flickr.com/photos/julianafk/487393559/

www.flickr.com/photos/julianafk/487393559/

 

Falo de um tempo em que não havia tempo, nem relógio ou calendário. Havia apenas a morte, e o temor de que ela nos encontrasse desprevenidos em nossos ranchos. A morte era impiedosa com nossa gente, levava-nos um a um para matar sua insaciável fome.

A morte não respeitava nossos bailes, nossos churrascos ou nosso sono. Sempre presente, espreitando nossos passos, esperando algum velho ou guri, sair sozinho buscar água no poço, para o chimarrão, ou lenha para o churrasco. Levava os melhores cães, os melhores cavalos, os melhores daqueles homens campeiros.

Quando morreu o último velho, fomos todos tomados pelo ímpeto de não mais morrer naquele tempo sombrio, em que sonhar era proibido. Queríamos viver, comemorar e sonhar. O mais bravo dos nossos convocou a todos para rumarmos ao monumental, no episódio que ficou conhecido como o tempo de matar a morte. Reunimo-nos então no Olímpico Monumental, antes de raiar a aurora, de onde seguimos em silêncio e em segredo para as bandas do extinto Guaíba, procurando abrigo em meio aos Chacos. E foi ali que fundamos ‘O Recomeço’.

A morte nos procurou com afinco durante milênios nos quais podíamos ouvi-la gritar nossos nomes. Porém, sendo ela aguardada, quando chegou ao Recomeço, encontrou-nos armados até os dentes, prevenidos para a peleia que duraria 3 séculos e 3 décadas.

Ao raiar o sol por detrás do Olímpico Monumental, na manhã seguinte ao término da batalha, o chaco havia banhado-se em sangue, havia virado um pântano, onde homens morreram por matar a morte. Aquele sol seria para sempre o precursor da liberdade.

Desde então o céu tornou-se azul, num tom que chamamos até hoje de celeste, e não se viu mais a morte por aquelas bandas. Diz a lenda.

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o imortal despede-se de Roger, com triste pesar…

Julho 6, 2008 · 1 Comentário

 

 

 

Esta semana, Paulo Odone, presidente do Grêmio futebol porto alegrense, encontrou sobre sua mesa uma carta. A carta continha um pedido de dispensa por 10 dias de Roger, o camisa 10 do grêmio.

Roger, quando recebeu o convite do tricolor gaúcho, estava sem emprego. Quando este não tinha mais espaço em nenhum clube do eixo Rio-São Paulo, o Grêmio deu-lhe a oportunidade de recuperar em seus gramados, o preparo físico, a técnica e a autoconfiança.

Desde sua primeira partida pelo tricolor gaúcho, foi recepcionado com aplausos. Foi homenageado pela nação tricolor, que entoou cânticos nos quais seu nome foi repetido em coro no monumental, quando ninguém mais o queria por perto.

O Grêmio deu ao Roger uma casa, uma família…uma oportunidade, e ele, sempre demonstrou gratidão ao clube e a sua apaixonada torcida.

O meio-campista do tricolor dos pampas anunciou em sua carta, ter recebido uma proposta de 5 milhões de euros do Qatar Sport Club, do Catar. É este o valor que pagam por nossa paixão, por nossas esperanças…nossos sonhos. A nação tricolor sente-se traída.

Não é a primeira vez que o tricolor gaúcho é apunhalado pelas costas ao dar uma chance a um jogador que encontra-se desacreditado e humilhado por outros clubes. Também não é novidade que este mesmo jogador abandone o clube e a torcida que a ele tantas homenagens rendeu.

O grêmio não pode mais permitir que sua casa seja usada como spa de recuperação. Nossa vida, tão rica em frustrações e renuncias não merece esse trato por parte daqueles a quem destinamos tanto calor humano e amparo.

Eu esperava mais do departamento jurídico do clube. Esperava mais do Roger…Espero que o grêmio continue sendo reconhecido por sua generosidade aos jogadores que outros clubes rejeitam. Mas precisamos voltar a ser o clube no qual homens se imortalizaram, jogando com raça, paixão e respeito pela insígnia que carregavam no peito, como o fez Lara, o craque imortal, Sandro Goiano, Darley, o Portaluppi…entre tantos outros.

Ao Roger, somos gratos. Imensamente gratos por sua atuação no clube. Espero que sua escolha não lhe renda sentimento de culpa. Com lamentável pesar desejo a ele sucesso em sua nova casa.

Espero ainda, passado o sentimento de traição, poder no olímpico, mesmo que contra o grêmio, cantar junto a geral;

“Roger querido,

A geral está contigo…”

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