Quando não houver mais nada no mundo, nenhum sentido em estar vivo, o que restará ao homem? Seguir em frente, sempre em frente – eis a resposta do americano Cormac McCarthy, 74 anos, em A Estrada .
Bah, tive a oportunidade de ler trechos do senhor em questão, tenho a dizer que desde J. D. Salinger, este modelo de ver e narrar andava muito raro, inexistente talvez. Mas eis que surge este monstro do realismo fantástico…só lendo pra entender, assino em baixo e aposto meus culhões em McCarthy!
confiram o breve trecho de A Estrada, ultimo romance publicado pelo autor;
Lembranças do apocalipse
Atravessaram a cidade ao meio-dia. Estava quase toda queimada. Nenhum sinal de vida. Carros na rua incrustada de cinzas, tudo coberto de cinza e poeira. Rastros fósseis na lama seca. Um cadáver na soleira de uma porta seco feito couro. Arreganhando os dentes para o dia. Ele puxou o menino mais para perto. Apenas se lembre que as coisas que você põe na cabeça ficam lá para sempre, falou.
Você se esquece de algumas coisas, não se esquece?
Sim. Você se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer.
A gente tem mesmo essa mania prudente de evitar os orelhões da cidade, a ficha no bolso, verdades descendo como dinamite pela garganta. A gente, sem dúvida, tem essa mania idiota de se sentar na mesma fila que a outra pessoa e não olhar para ela. Porque aprendemos com o tempo que ignorar nos deixa longe de encrenca. Só não aprendemos que sem encrenca e essa garota de caninos salientes que deixa marcas profundas em nosso pescoço e que exige envolvimento não há felicidade. A gente alimenta mesmo esse medo imbecil de esparramar os talheres na mesa. Porque nos ensinaram que confissão só mesmo atrás de uma grade de madeira ou sob porrada. Por isso marcamos tanto, deixamos pra lá. A dinamite explode no estômago e a gente então apodrece conformado, egoísta com um disco de jazz, um cachorro e uma garotinha, a filha da vizinha, preparando o café. Em algum lugar, alguém na mesma situação precisando ouvir coisas que a gente precisava dizer. Lou Reed só se tocou quando estava lá, no funeral. O corpo de Andy, seguramente ainda mais pálido, parecia dizer: “E então, Lou? Você está aí. Acabei de apostar com Jim Morrison que você não ia aparecer”. Então Reed olhou para John Cale e falou: “Acho que precisamos fazer alguma coisa”. Fizeram 14 canções. Lou Reed vomitou dinamite, vísceras e flores. Emocionou quem o ouviu na igreja de St. Ann no aniversário da morte de Andy. O homenageado talvez não se emocionasse tanto, é que ele preferia as coisas diferentes, afinal foi Andy quem descobriu Lou e sua gang, um grupo tão obscuro quanto o nome (Velvet Underground) tocando num lugar também obscuro, o Café Bizarre no Greenwich Village, e os convidou para que fizessem parte de um espetáculo que estava preparando, o “Andy Warhol-up tight” que depois passaria a ser chamado de “Explosão Plástica Inevitável”, foi ele também que produziu o primeiro disco do Velvet e desenhou a capa, a famosa capa com a banana, mas depois Lou acabou por afasta-lo da banda assim como afastou John Cale e Nico. Lou Reed nunca mais quis saber de Andy. Em seu diário (lançado no Brasil pela L&PM) Andy queixa-se que Lou Reed não lhe telefona mais, não o convidou para seu casamento, senta-se na mesma fila que ele e o ignora. Andy escreveu: “Eu odeio Lou Reed cada vez mais”. Nas 14 canções, um Lou Reed friamente emocionado, como só Lou Reed poderia ser tenta se retratar e recuperar o tempo perdido. Ele escreve em Starlight: “Telefone logo antes que a gente se mate de conversar”. É uma confissão tardia, porém dolorida, sincera, estilhaços de frases que não foram ditas no momento oportuno. O poeta e seu poder de, mesmo sendo canalha, ainda assim, emocionar. A Rede Bandeirantes, mostra hoje a noite essas 14 canções (o disco já está a venda). Quem quiser se tornar testemunha dessa confissão emocionada, basta mudar de canal, não é pedir muito, visto as bobagens que vão estar passando nos outros. Mas se você está a fim de virar personagem, faz o seguinte: mata aquele resto da garrafa de conhaque, bate na porta da casa daquela pessoa, aí quando ela abrir, você diz: “E aí, como é que é? Eu não te vejo a tanto tempo, tem algumas coisas que eu tava querendo te dizer. Eu sei que pode ser um pouco tarde, mas tenta entender, é assim que sou”.