sobre sentidos e cães guia

Texto antigo. Estaria o autor se transformando em um cover de si mesmo?. Não, eu lhes asseguro!

Sullivan gostava de explorar os sentidos, tinha algo a ver com o fracasso de seus próprios sentidos, eu acho. Na década anterior, fora apontado como um dos nomes mais promissores da literatura nacional. Seu poema épico experimental “marrom punheta”, alguém parte algo se rompe” foi premiado até no exterior. Não que ele ligasse pra isso. Isso tudo, porém, foi antes das 12 paradas cardíacas que consumiram suas vaidades. Pois é, ele garantia que poesia experimental é diretamente proporcional a auto-estima do sujeito. Eu costumava ir ao sítio de Sulli. Era recepcionado pelo que ele chamava de cão-guia. Ele comprou o cão porque estava cego. Ele precisava de um guia. Ele nunca percebeu que o cão era tão cego quanto ele. E quem poderia culpa-lo? Ele precisava acreditar que algo ou alguém o guiava. Deve ser isso o que sobra para um sujeito que foi esquecido. Eu sentava ao lado de Sulli e lia para ele os jornais locais. Discutíamos, as vezes ele ria um pouco das tragédias dos outros. Só as vezes. Não havia crueldade nisso, parecia mais uma profunda compreensão humana , uma espécie de altruísmo o que o fazia rir daquele jeito. Rir como quem chora. Era assim que ele ria. Ou talves fosse uma outra forma de explorar os sentidos. Como quem assovia uma canção de esperança num disco sobre desespero. Ontem, ao chegar ao sítio, Dudu, o cão cego não venho me recepcionar. Na ausência do cão intui o que encontraria. Dentro da casa, o cão estava deitado aos pés de Sulli, como quem não se move, pois não há uma voz a guia-lo. Sulli tomou os remédios para o coração com pinga mineira. Acho que tinha algo a ver com explorar os sentidos. Embora o poeta estivesse morto, li para ele as noticias, como fazia religiosamente. Em sua fisionomia havia um sorriso. O último sorriso daquele homem. Liguei para as autoridades para informar a morte do poeta. Embora, eu, Sulli e o cão fossemos ateus, fiz uma oração que aprendera na infância. Me despedi do amigo morto e levei Dudu, o cão cego comigo. Não havia nenhuma compaixão neste ato. Eu apenas compreendera de súbito que todo mundo precisa de algo, mesmo um pobre cão cego, para chamar de guia.

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